Ao pé do Ouvido



Trago influências de autores artistas com quem me identifico muito fortemente. São criações e pensamentos que compartilho contigo, ao pé do ouvido...



Ele é o lugar do presente, do cruzamento da história,

da petrificação ao mesmo tempo que da mudança.

É o lugar da dobra, e a linguagem está em toda a sua força de construção.

Mas este lugar-tempo não tem centro.

Ele é o lugar do sujeito em deriva, da linguagem em transmutação e da mimese em

produção. Este é um entre-lugar, o lugar da alteridade e do silêncio.

O lugar da metáfora e não do conceito, onde a linguagem transgressora se realiza (...).1



“ Sou um objeto sem destino.

Sou um objeto nas mãos de quem? tal é o meu destino humano.

O que me salva é o grito. Eu protesto em nome do que está dentro

do objeto atrás do atrás do pensamento-sentimento.

Sou um objeto urgente.2



“ ... Navegar é preciso, viver não é preciso ...”3



“(...) nunca é o que já está escrito, nem mesmo o que se está escrevendo,

mas outra coisa que não se chega a dizer.”4



“... sobretudo um dia virá

em que todo o meu movimento será criação, nascimento,

eu romperei todos os não que existem dentro de mim,

provarei a mim mesma que nada há a temer,

que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com o meu princípio,

erguerei dentro de mim o que sou um dia...”5



O tempo constitui uma condição da existência do nosso "Eu”.6



“(...) O tempo não pode desaparecer sem deixar vestígios,

pois é uma categoria espiritual e subjetiva,

e o tempo por nós vivido fixa-se em nossa alma

como uma experiência situada no interior do tempo.”7



“É preciso pôr em questão, novamente, essas sínteses acabadas (...).

É preciso desalojar essas formas e essas forças obscuras pelas quais se tem o hábito de

interligar os discursos do homem. É preciso expulsá-las das sombras onde reinam. (...)

É preciso também que nos inquietemos diante de certos recortes e agrupamentos que

já nos são tão familiares.” 8



“(...) tecendo barreiras entre o homem e as questões fundamentais da sua existência,

entre o homem e a consciência de si próprio.” 9



“(...) uma verdadeira comunicação de sentimentos.

Você caminha por uma rua, e os seus olhos encontram-se

com os de alguém que passou ao seu lado.

Houve algo de surpreendente nesse olhar, que lhe transmitiu um sentimento de

apreensão.

A pessoa que passou influenciou-o psicologicamente,

deixando-o num estado de espírito específico.” 10



Num poema de Baudelaire, “A Passante”,

o poeta ainda capta o olhar e as coisas como elas eram,

até que ele mesmo se vê refletido nos olhos de uma bela mulher

que caminha em direção contrária a sua. A experiência o surpreende e o imobiliza.



“O que aprendi olhando para baixo esse tempo todo...

quero transformar num olhar profundo... Num grito breve, num odor penetrante.

Afinal, estive fora por tempo demais. Ausente o suficiente.

Longe o suficiente do mundo. Quero entrar na história do mundo,

ao menos para segurar uma maça...”11



“Penso que o meu caminhar é maravilhoso, pois agora já não sei o que vem antes,

se é a arte em forma de proposições ou a vida que, de repente,

se despenca dentro de mim e me traz esse estado de supersensibilidade!”12



“ser ou não ser, eis a questão.”13



Além da escritora Clarice Lispector, que foi fonte inicial de inspiração e identificação muitas e muitas vezes, tem a Lygia Clark e entre seus trabalhos, o primeiro que conheci: a instalação A Casa É o Corpo: Labirinto (1968) que oferece uma vivência sensorial e simbólica, experimentada pelo visitante que penetra numa estrutura de 8 metros de comprimento, passando por ambientes denominados "penetração", "ovulação", "germinação" e "expulsão".

Tem também muitos dos filmes de Pedro Almodóvar e em especial o Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos (1988).

Surge ainda Wim Wenders e destaco seu filme Asas do Desejo (1987), e entre as diversas obras do cineasta Andrei Tarkovski ressalto o filme Stalker e o livro Esculpir o Tempo.

Milan Kundera e muitas de suas obras fazem parte desta mescla, em especial A Insustentável Leveza do Ser.

Acrescento a artista visual e curadora Neide Jallageas com quem iniciei e convivi intensamente nos primeiros anos deste projeto e com quem retomei cumplicidade em 2008 e 2014.

E finalizo com o bailarino Klauss Vianna, que criou uma técnica de dança com seu nome. “O que proponho é devolver o corpo às pessoas. Para isso peço que elas trabalhem cada articulação, mostrando que cada uma tem função, e essa função precisa de espaço para trabalhar. Da mesma forma, a musculatura também precisa de espaço: ela se relaciona com os ossos, existe uma troca constante entre essa musculatura e os ossos. Tudo no corpo, na vida, na arte é uma troca”.

Isabella



1. HELENA, Lucia. Nem Musa Nem Medusa. Rio de Janeiro: EDUFF, 1997, p.77.

2. LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Artenova,1973, p.104

3. Fernando PESSOA,.

4. WALDMAN, Berta in apresentação de Lucia Helena, Nem Musa Nem Medusa. 1997, contracapa.

5. LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem

6. TARKOVSKY, Andrei. Esculpir o tempo. 3a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 64.

7. TARKOVSKY, Andrei. Esculpir o tempo. 3a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

8. I(Michel Foucault )N GARCIA, Wilton. A forma estranha. São Paulo: Edições Pulsar, 2000, p.11.

9. Autor desconhecido

10. TARKOVSKY, Andrei. Esculpir o tempo. 3a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 22.

11. WENDERS, Wim. Asas do desejo. Alemanha. 1987. Gênero: Drama. Duração: 127 Min. Produtora: Europa Filmes. Elenco: Bruno Ganz, Otto Sander.

12. CLARK, Lygia. 22.1.1970

13. Shakespeare, William. Fala do personagem Hamlet na peça Hamlet.