Sobre a Câmera de Orifício



“(...) Aparelhos são caixas pretas que simulam o pensamento humano, graças a teorias científicas, as quais, como o pensamento humano, permutam símbolos contidos em sua ‘memória’, em seu programa. Caixas pretas que brincam de pensar”.

(em Filosofia da Caixa Preta, de Vilém Flusser, 1985)

Antes de darmos início à questão principal que é a produção de imagens fotográficas por um processo alternativo, vamos fazer uma pequena introdução, buscando entender o princípio básico da fotografia que é a câmara (ou câmera) escura. Quando falamos em câmara escura, estamos nos referindo a um espaço interior, um compartimento fechado. Uma câmara escura pode ser, por exemplo, um quarto fechado, uma caverna, uma caixa ou mesmo o interior de uma lata. A luz procedente de um objeto iluminado e que, através de uma pequena abertura, penetra o interior de uma câmara escura, reproduz lá dentro, em sua parede oposta à abertura, uma imagem invertida deste mesmo objeto.

A Câmara Escura

O fenômeno da câmara escura talvez acompanhe o homem desde os primórdios das cavernas. Na Grécia Antiga, Aristóteles já se referia à câmara escura como instrumento de observação de eclipses solares. Na Idade Média este fenômeno foi também conhecido e estudado, mas só a partir do século XV os estudiosos passaram a dar mais atenção a este fato mágico. Leonardo da Vinci, gênio da pintura, foi também um sábio que se dedicou ao estudo de diversas ciências. Examinou o fenômeno da câmara e demonstrou as possibilidades no uso para o desenho, facilitando enormemente a reprodução das imagens por esta produzida. O termo "Pinhole" apareceu ainda no século 19, criado por David Brewster, um cientista inglês, que foi, possivelmente, o primeiro a fazer imagens fotográficas com uma câmera escura usando o pinhole. Daí para frente a tendência foi cada vez mais o aprimoramento da caixa. No sentido de melhorar a qualidade e facilitar a visualização da imagem, no lugar da pequena abertura foi colocada uma lente biconvexa.

Fotografia Pinhole

Pinhole é um processo alternativo de se fazer fotografia sem a necessidade do uso de equipamentos convencionais. Sua câmera artesanal pode ser construída facilmente utilizando-se materiais simples e de poucos elementos. O nome inglês Pinhole ou Pin-Hole pode ser traduzido como “buraco de agulha” por ser uma câmera fotográfica que não possui lentes, tendo apenas um pequeno furo (de agulha) que funciona como lente e diafragma fixo no lugar de uma objetiva. Também conhecida como câmera estenopeica, a pinhole é basicamente um compartimento todo fechado onde não existe luz, ou seja, uma câmara escura com (normalmente um) pequeno orifício. Nota de Isabella: Alem dos nomes pinhole, pin-hole, buraco de agulha e câmera estenopeica também usamos câmera de orifício. A diferença básica da fotografia pinhole para uma convencional está em sua ótica. A imagem produzida em uma pinhole apresenta uma profundidade de campo quase infinita, ou seja, tem um foco suave em todos os planos da cena (tudo está focado).

A Construção

Para se fazer uma pinhole é muito fácil; basta termos à mão o material necessário, que pode ser desde uma simples caixa de sapatos, latinha de leite em pó ou algo semelhante (desde que tenha tampa) como uma caixa de madeira um pouco mais elaborada. O primeiro passo é transformar esta caixa numa câmara escura. Para isso é necessário escolhermos uma caixa com uma tampa que vede bem o interior da mesma. Com tinta preto-fosco pintamos o interior da câmara, inclusive a tampa. Podemos também utilizar um papel cartão preto para forrar a câmara, ao invés da tinta. O importante é mantermos a câmara realmente escura. Depois, com o auxílio de uma agulha, furamos um pequeno buraco em uma das laterais da caixa/câmera. Em alguns casos, onde a dureza do material usado para câmera não permite um furo perfeito (que é fundamental), devemos então fazer um buraco maior e colar sobre ele um pedaço de papel alumínio ou um retalho de latinha de cerveja e neste sim, fazermos o furinho de agulha. Isto irá facilitar e melhorar o trabalho.

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O segundo passo será o de verificarmos que não exista nenhum outro ponto por onde a luminosidade externa possa entrar além do orifício já feito. Este por sua vez deverá ser vedado pelo lado de fora da pinhole com um pedacinho de fita isolante preta, que servirá como o dispositivo de controle da entrada de luz no interior da câmera. Temos assim uma câmera fotográfica Pinhole pronta para o uso. Basicamente, a câmera é feita assim. Podemos, à medida em que vamos experimentando, aperfeiçoar um pouco mais e adaptar a pinhole ao nosso modo e conforme a meta que pretendemos atingir.

Pin-hole em Câmeras fotográficas convencionais

Podemos transformar uma câmera fotográfica comum, numa câmera pinhole. Basta que esta câmera tenha um controle de tempo que nos possibilite uma exposição prolongada (tempos B ou T no botão do obturador). Câmeras em que podemos deixar a luz incidir sobre o filme pelo tempo que quisermos. Como sabemos, para se fotografar com uma pinhole é preciso de tempo às vezes longos, às vezes nem tanto. Depende da quantidade de luz sobre a cena que desejamos fotografar. A transformação não exige grandes adaptações e nem prejudica o equipamento - é simples. O material necessário é somente papel cartão preto, tesoura, lápis ou compasso, agulha e fita adesiva. Podemos construir uma pinhole para uma câmera com ou sem objetiva. Existem diferenças:

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Sem objetiva - A pinhole para uma câmera sem objetiva é autentica, pois sua imagem será gerada sem uma lente de correção. É uma verdadeira pinhole com recursos de uma câmera convencional. Para esta, usaremos o mesmo processo de confecção da primeira, com o detalhe para o círculo de papel que deve ser feito com mais cuidado. O furo deve ser feito com a ponta de uma agulha fina. Observaremos se o buraco não apresenta rebarbas de fibras, que podem comprometer a qualidade da imagem. A seguir, tiramos a objetiva da câmera e em seu lugar fixamos o círculo de papel cartão. Devemos vedar bem ao fixarmos nosso pinhole, evitando que a luz entre por outros lugares senão o pequeno orifício. Está pronta!

(...) A câmera deve estar com o obturador regulado em tempo B ou T. A exposição exige um tempo que, mesmo sendo pequeno, precisa que a câmera esteja bem apoiada para evitar uma imagem tremida ou borrada. Neste tipo de experiência estamos somando a técnica da pinhole com a de um equipamento convencional. O resultado é uma fotografia essencialmente pinhole, com inúmeras vantagens e os recursos que uma câmera 35mm pode nos oferecer, além da possibilidade de uso dos diversos tipos de filmes (P&B, Cor, Infra-vermelho, Cromo, Gráficos, etc...). As imagens geradas nesses negativos e positivos, embora pequenas, podem ser ampliadas de forma digital ou analógica.

Pin-hole em Câmeras fotográficas Digitais

O processo descrito para câmeras de fotográficas convencionais é o mesmo para quando usamos uma câmera digital, e é o que foi adotado por Isabella.

Navegue, Pesquise, Viaje!

Abaixo seguem alguns sites interessantes que abordam diversos aspectos da câmera de orifício.

Abelardo Morrel

Site que mostra imagens feitas a partir de cameras obscuras. Navegue pelos links Câmera Obscura e Tent-camera.

Clube Pinhole

Site português sobre câmera de orifício. Destaque para exemplos em que são apresentados modelos de câmaras e imagens captadas com elas. E para história em que são apresentados detalhes sobre os fenômenos físicos que envolvem a descoberta e princípios da pinhole.

Fotoativa

Site brasileiro da Associação Fotoativa – fundada em Belém por Miguel Chikaoka -, que além de promover o Pinhole Day Belém é um núcleo de referência na aplicação de projetos artísticos-pedagógicos no Brasil, utilizando a cåmera de orifício nas suas atividades.

Galeria Pinhole

Site brasileiro sobre câmera de orifício desenvolvido por Cleber Falieri que além de apresentar referências históricas no Introdução do menu, no Pinhole mostra como construir câmaras e como adaptar equipamentos convencionais para pinholes. Em Imagens apresenta fotos com referências de tempo, material fotosensível e modelo de câmera usados.

Grupo Lata mágica

Grupo responsável pelo Olhar Passageiro, projeto aprovado pelo Fumproarte – Fundo municipal de apoio a cultura de Porto Alegre, que expôs imagens fotográficas nos ônibus de Porto Alegre/ Brasil. Foram vinte e cinco imagens, em P&B sobre a cidade, obtidas pelo grupo através da técnica Pinhole. No menu Contato indica uma série de sites que falam de câmera de orifício.

Worldwide Pinhole Photography Day

Site dedicado ao Dia Mundial da Câmera de Orifício, que é sempre comemorado no último domingo de abril.