Instâncias do reconhecimento nos retratos fotográficos de Isabella Carnevalle

Neide Jallageas, 2014



Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existissem espelhos. Você teria sonhado com seu rosto, o teria imaginado como uma espécie de reflexo exterior daquilo que se encontra em você. E depois, suponha que com quarenta anos tenham lhe estendido um espelho. Imagine seu espanto. Teria visto um rosto totalmente estranho. E compreenderia nitidamente aquilo que recusa a admitir: seu rosto não é você¹.

Há dezesseis anos Isabella Carnevalle produz fotografias que integram o trabalho feminino pelo feminino. A visão de todo o conjunto possibilita relacionar os dispositivos de captura e de processamento de imagens utilizados para reproduzir o rosto da artista com os retratos obtidos.

Se o impulso inicial de Carnevalle tocou em possíveis dramas íntimos de algumas personagens tecidas por Clarice Lispector, as opções técnicas e estéticas da fotógrafa, com o correr dos anos, acabaram por flagrar em luz performances de forte carga auto referencial.

As imagens iniciais que saltavam das páginas de Lispector para os sais de prata possuíam um caráter técnico singular, que exigia da artista uma longa pausa em sua pose diante de uma câmera de orifício, feita por ela mesma. O enquadramento era planejado intuitivamente, a partir de seu próprio corpo diante da caixa preta sem visor que ficava à sua frente. Esse enquadramento só seria conferido no escuro do laboratório fotográfico com suas químicas e seu odor característico. O tempo requerido para a inscrição do retrato no filme era tão ou mais longo que o tempo para a revelação da imagem.

Quase ao mesmo tempo em que passou a fazer uso de técnicas digitais, Carnevalle redirecionou o foco para si mesma tendo seu rosto como espelho de possíveis reconhecimentos.

O processo tornou-se outro. O visor da câmera digital passou a oferecer a possibilidade instantânea de conferir o resultado e corrigir enquadramento, luz, pose e pausa. Talvez a facilidade tecnológica que aproximou o real desejo de obter determinada imagem da possibilidade de obtê-la sem o longo ritual exigido pelo processo anterior, tenha aproximado a imagem desejada de sua possibilidade real. O que eram traços fugidios e oscilantes firmaram-se, cada vez mais expressivos. O mistério aparente cedeu espaço à narrativa de tensões íntimas em retratos altamente perturbadores.

A epígrafe que abre esse curto texto cumpre o destino de mediadora entre um período e outro do percurso criativo de Carnevalle: o espelho antes roubado por uma técnica que obrigava o corpo a pausar em estado quase meditativo e obediente ao resultado que haveria de surgir da química, agora reflete múltiplas faces tornando imperativa a ação de escolher. Resta perguntar se houve o momento em que o artifício ocultou o rosto sob máscaras, ou se o rosto se libertou do reconhecimento almejado.

¹. KUNDERA, Milan. A Imortalidade. São Paulo: Nova Fronteira, 1990. Pag. 37



Imagem Presença Experiência

Marcelo Gobatto, 2014



Na exposição “Feminino pelo Feminino” realizada em 2008, Isabella buscou ambientar seus autorretratos no espaço da galeria do Centro de Cultura Érico Veríssimo valorizando algo que vai além de cada imagem ali enquadrada. O uso de trípticos, diferentes escalas e suportes para reprodução da imagem, a ambivalência da iluminação, o acréscimo de objetos e materiais deslocam o “significado” das obras para outro lugar, que não apenas na imagem ou no conjunto – características da fotografia moderna. Esses artifícios provocam um estranhamento e produzem outros sentidos, proporcionando uma experiência estética que aponta para outro estatuto da imagem e para entendermos a fotografia como presença.

Em 2014, a artista opera um desdobramento deste projeto possibilitando aos internautas visitarem sua exposição em um ambiente virtual 3D. As fotografias estão no espaço público da web e podem ser acessadas na tela de um computador, notebook, tablet ou smarthpone, seguindo uma tendência de artistas, designers e instituições que vêm explorando as possibilidades de interação e fruição da imagem na internet, como as propostas de Aaron Koblin ou a recente novidade da Tate Modern de Londres, que oferece ao seu púbico a possibilidade de uma visita a seu acervo guiada por um robô. Altera-se a forma como acessamos as imagens, mas mantém-se o percurso por um ambiente. A percepção, as sensações que a imagem proporciona, os sentidos que cada imagem pode produzir em cada visitante permanecem: as obras falam sobre a condição da mulher, o narcisismo, a auto-exposição, as contradições do ser e a afirmação do devir e das multiplicidades. Na contemporaneidade, com a cultura digital e as mudanças de comportamento, o paradigma presencial e face a face dá lugar a relações pessoais e sociais, experiências cognitivas e educacionais, entre outras, que se travam em ambientes como o second life, as redes sociais ou as plataformas de games.

As fotografias de Isabella são produzidas com o uso da pinhole digital. A pinhole ou câmera de orifício remete a câmara obscura - um dispositivo que, conforme pesquisas atuais, era conhecido pelo homem do paleolítico e proporcionou a primeira experiência do homem com a imagem e a representação. Ao atualizar este dispositivo com a tecnologia digital e apropriar-se dos ambientes virtuais, seu processo mostra uma aproximação com uma concepção da fotografia que afirma a imagem como matéria, presença, experiência ligada a um regime de tempo do virtual e do devir, que condiz com a série de autorretratos apresentada que tem sua potência na multiplicidade e na diferença. A exposição nos convida a experimentar novas sensações.



A câmera-útero de Isabella Carnevalle

Neide Jallageas, 2008



“Aparelhos são caixas pretas que simulam o pensamento humano”, anuncia o filósofo. Caixas pretas podem simular o pensamento uterino, responde a ação da artista.

No útero a vida se desenvolve ao vento; soprado pela água na carne macia de nossas mães, gestando células multiplicadas em corpo, desdobradas a uma experiência no tempo. A câmera-útero de Isabella Carnevalle traz fotografias gestadas em dez anos cujos contornos se multiplicam no espaço instalacional. A elas a artista agrega outras matérias para instaurar a fluidez do ambiente: tecidos, pós, espelhos, luzes e nos convida a percorrer o espaço-câmera onde nos recolhemos em silêncio.

O recolhimento também se faz presente quando da leitura de um conto de Lispector, Clarice, matriz das primeiras experimentações de Isabella: é necessário certa acústica, jogos de luz que suspendam o tempo, o ingresso em um mundo do qual descuidamos.

As fotografias assim espacializadas apresentam não apenas visões, mas sensações. O percurso proposto pela artista é antes fluxo que traço. Fluxo também temporal. Tempo que é de espera, mas também de escuta: para que a sensação encontre o ponto exato no aconchego da penumbra.

Percorri esse espaço, primeiramente, pelas mãos da artista, na busca de seu próprio caminhar. Foi um privilégio. Ao descrever o trabalho ela não fala inicialmente da instalação. Como Marco Polo desvendando as cidades invisíveis, Isabella fala do entorno: através dele alcançamos o interior. É o circundante que prepara o sensorial para que tenhamos consciência do ambiente.

Há de se ouvir primeiramente as ruas, chocar-se com as altas luzes, o corpo alheio à multidão, na turvação dos sentidos no feixe nervoso da cidade e eis então a Rua da Praia. Aí o Centro Cultural Erico Verissimo. Entramos? A artista prossegue: “Passamos pelo hall de entrada. O ambiente é bem iluminado, espaçoso, limpo. Uma mudança e tanto se pensarmos na rua! Subimos algumas escadas e seguimos de elevador até o terceiro andar. Nos deparamos com um pequeno hall claro e silencioso. O piso é daqueles vidros grossos, iluminados por embaixo, de tom levemente esverdeado. Me inspira leveza, segurança e tranqüilidade.”

Só aí surge a passagem, o fluxo proposto, as imagens de um tempo outro, talvez a figura de uma mulher (à qual a artista empresta as luzes refletidas de seu rosto) que é a mesma e tantas outras! Poderia ser uma das belas figuras femininas, retratos de Julia Cameron, bem no início da história da fotografia, cento e cinqüenta anos atrás. Deixemos ao corpo o percurso, memória de múltiplas passagens que se insinuam entre o negro e o branco, nuances; e a sutileza entre supostos avessos e direitos, versos e reversos. Observemos um pouco e finalmente as baixas luzes, o suave contraste, a presença das figuras no ambiente, as suas inconstâncias, incorreções, distorções; há um certo desejo de entrega ao espaço das imagens desdobradas em si mesmas refletidas nos espelhos na flutuação do tempo que dura, enquanto nos movimentamos ou nos detemos entre um rumo incerto e outro, talvez mais impreciso.

E da tecnologia? Não falaremos da tecnologia? De fotografar através de um buraco de agulha? Isabella se afasta dos conceitos precipitados sobre as câmeras de orifício. Sua instalação nos propõe também pensar no que há de mais sofisticado, o que essa tecnologia, aparentemente simples, possibilitou aqui construir: outros percursos entre fotografia, espaço e corpo e não mais entre fotografia e visão. Fotografar nesse trabalho é uma escolha, interventora, que amplia o sentido da opção tecnológica a partir do gesto de Isabella em deslocar a fotografia da parede para o espaço, de tornar comprometido o público para com o acabamento do seu gesto. A obra pede a ativação de sentidos diversos, além do olhar. Não se trata portanto da câmera fotográfica como útero e sim do pensamento uterino enquanto conhecimento que se constrói em movimento do corpo, em fluxos espaço-temporais, onde diferentes matérias gestam novas possibilidades de perceber. Aí está a intervenção da artista no “aparelho”. O convite está feito: diante da passagem, entremos. Uma vez aberta a caixa preta, entreguemo-nos à descoberta.